Por Leandro Fortes.
Na edição dessa semana, a revista Época fez uma
ótima reportagem sobre a venda de votos no Brasil. A reportagem,
assinada por Marcelo Rocha e Hudson Corrêa, se inicia com uma denúncia
sensacional: em Betim, Minas Gerais, o candidato do PSDB à prefeitura,
Carlaile Pedrosa, foi filmado enquanto comprava votos de pobres
carroceiros por 280 reais. O vídeo está (ou estava) no site da Época
para quem quiser ver.
Vale a pena ler o lead da matéria:
“Na
lista das profissões em extinção num Brasil que se moderniza, está o
carroceiro. Os poucos que resistem evocam gravuras de Debret
(1768-1848), o pintor francês que fez a crônica visual do Brasil
Colônia. No tempo de Debret, eles transportavam tonéis de água num Rio
de Janeiro onde não havia saneamento básico. No Brasil de hoje, puxam
pesadas carroças de lixo reciclável, em troca de vencimentos que
raramente chegam ao salário mínimo. Na cidade mineira de Betim,
município da Grande Belo Horizonte, um carroceiro ganha em média R$ 600
por mês. Para ele, R$ 280 fazem diferença no orçamento. É essa a quantia
que o candidato Carlaile Pedrosa (PSDB) paga a carroceiros em troca de
apoio político – como mostra um vídeo obtido com exclusividade por ÉPOCA
e que evoca, na era da urna eletrônica, o Brasil do tempo das carroças.
As imagens abaixo mostram Carlaile, postulante à cadeira de prefeito de
Betim, chegando de carro a um bairro pobre da cidade. Logo depois, uma
correligionária dele se encontra com carroceiros. Tira do envelope um
maço de dinheiro. Eles ficam felizes. “Só de o pagamento ser em dinheiro
já tá bom demais. Da outra vez foi em cheque”, afirma um deles. “Vai
ter mais 140 ou é só este?”, diz outro – e é imediatamente informado de
que receberá a mesma quantia depois do pleito, caso Carlaile seja
eleito. As imagens evocam, tristemente, o folclore do tempo dos
coronéis, quando lavradores descalços recebiam o pé direito do sapato
antes da eleição, e o pé esquerdo depois, apenas no caso de vitória do
candidato.”
Uma denúncia contra tucanos na Época é coisa
rara de se ver, embora os editores tenham tido o cuidado de, na capa,
não escrever o nome do PSDB na chamada para o texto. Lá está assim: “O
vídeo que mostra carroceiros mineiros recebendo R$ 140 em troca de
apoio”. Imagine se o corruptor fosse do PT… Bom, mas isso não tira o
mérito da matéria, muito menos da informação.
Os repórteres, no
entanto, não tiveram muito tempo para se cobrir de glórias. No mesmo dia
em que a revista chegou às bancas, o site da Época foi obrigado a
publicar uma nota oficial do PSDB de 5,5 mil caracteres desqualificando o
trabalho dos jornalistas. Contra eles,a incrível acusação de utilizarem
um vídeo que não havia sido produzido por eles. E esse não é o único
argumento ridículo levantado contra a reportagem. A coordenação da
campanha do tucano Carlaile duvida até do sotaque dos personagens do
vídeo. Tentam, assim, explicar o inexplicável.
E Época submeteu seus leitores a isso.
Ao
que parece, houve um ruído de comunicação dentro das Organizações Globo
sobre o assunto. Como se sabe, a blindagem do PSDB em Minas Gerais tem
sido absoluta desde o primeiro governo de Aécio Neves, sobretudo na
imprensa. Nada sai sem o crivo dos tucanos. Mas a Globo é uma família
muito desunida, basta reparar na quantidade de matérias que o Jornal
Nacional repercute da Veja, e quantas da Época.
O tal vídeo com a
compra de votos de carroceiros em Betim estava nas mãos da TV Globo
Minas havia duas semanas, mas a direção da emissora decidiu ignorar a
denúncia. Como nada saía na televisão, a coordenação de campanha da
candidata Maria do Carmo Lara, do PT, de posse do vídeo, procurou a
revista Época. De Brasília e do Rio, os repórteres foram a Betim e
fizeram o dever de casa bem feito. Como prêmio, receberam a
nota-reprimenda do PSDB.
Fato consumado, a TV Globo de Brasília
solicitou as fitas que estavam na Globo Minas, no fim de semana, para
verificar a possibilidade de ao menos repercutir no Jornal Nacional ou
quiçá no noticiário da Globo News a reportagem da coirmã Época.
Mas não saiu nem uma nota coberta.
Por que será?
Ailton Medeiros
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