Claro! Essa só podia ser do Blog do Ailton Medeiros
Vejam vocês até que ponto chegou o ódio de certos articulistas da
velha mídia. Em sua coluna desta terça-feira, Arnaldo Jabor diz que
sonha com um supercrash capitalista, que faça o Brasil desmoronar. Jabor
não se conforma com o fato do mundo estar se desmoronando enquanto o
Brasil vai bem, obrigado.
Segue o texto:
ARNALDO JABOR
Às vezes, sonho com um supercrash do capitalismo. Maior do que o
atual. Em dias de ódio e tédio com o mundo fora dos eixos, desejo o mal:
“Que quebre tudo logo, vamos recomeçar do zero!” Sonho, às vezes, como
um bolchevista louco ou um homem-bomba querendo a morte dos cães infiéis
– que somos nós. Um ‘supercrash’ seria bom. Dar-nos-ia uma consciência
mais humilde de limites. Em meu delírio, chego a desejar que alguma
catástrofe aconteça, para nos despertar desta suja esperança, desta
sórdida alegria obrigatória que nos impingem.
O crash traria uma nova era; terrível ou não, alguma verdade
surgiria… Como chamá-la? A pós-pós-modernidade? O pós-apocalipse? A
“desglobalização”? A única coisa que não será “pós” é a burguesia,
claro. Não há “pós-burguesia”.
O supercrash seria bom para fracassados, pois estão desculpados, mas
seria ruim para catastrofistas – que ficariam sem anátemas e protestos
nos bares. Uma crise é boa para o contato com o absurdo. Nesse sentido,
uma crise radical seria ‘filosófica’, porque o mal ficaria banalizado e o
bem, um luxo ridículo, um hobby.
Ficaríamos mais espiritualizados com uma supercrise. Num primeiro
momento, o horror, bolsas caindo, grana sumindo. Depois, a paz do
inevitável, a calma da desgraça assumida – vejam o rosto pacífico dos
famintos do Sudão. A fome traz uma paz desesperançada. Uma
super-recessão muito maior que em 29 pode mostrar que a voracidade
consumista não é a única maneira de viver. Seríamos mais magros e mais
frugais; ficaríamos mais elegantes com um crash. ‘Crash chic’.
Um supercrash apaga o sorriso dos colunáveis nas revistas. Um crash
fecha a Caras e provoca uma onda de suicídios de milionários e
instilaria humildade nas almas yuppies. Acabariam suspensórios floridos e
gravatas de pintinhas. Das salas ricas, sumiriam elefantes de prata,
lustres de cristal e tapetes de zebra.
Voltariam os hippies, as drogas lisérgicas, o artesanato de couro, a
poesia, a arte, a lenta reflexão, “slow life”. Toda crise é uma
renascença. Haveria uma estética do crash. O crash criaria escolas
filosóficas: o ‘pirronismo’ absoluto, um neoniilismo pragmático e a
escatologia escatológica: “a merda está no fim da história”, uma espécie
de Hegel de marcha à ré.
Os intelectuais encheriam a cara nos bares, cheios de esperançoso
pessimismo. Os bondosos de carteirinha, os cafetões da miséria, santos
oportunistas, ficariam todos em pânico: “Se não houver um mal claro,
como seremos bons?”
O mundo se ‘balcanizaria’ em ilhas culturais e psicológicas; o mundo
se espalharia em esponjas, em vazios, em avessos, em ‘buracos brancos’
que se alargam enquanto o tecido da sociedade se esgarça. Não seriam
‘células de resistência’, mas ‘buracos de desistência’.
Os filmes americanos ficarão felizes e haverá musicais para nos
alegrar, como no tempo do crash de 29 . Fred Astaire vai dançar com
Ginger Rogers de novo. O crash acaba com os filmes de grande produção. O
crash vai nos livrar dos grandes shows de rock, das milionárias bandas
revoltadas, dos best-sellers de autoajuda (pois não haverá salvação
possível), das supercervejarias, dos canecões. Diminuiria muito nossa
ansiedade patológica e teríamos a depressão, que é muito melhor porque,
ao menos, descansamos caídos na cama.
Com a nova guerra fria entre russos e americanos e, talvez, uma
guerra quente no Oriente Médio, teríamos a restauração da beleza da
morte e não mais sua banalização pelos videogames letais. Uma
‘supercrise’ traria um novo sabor de verdade a esta ópera-bufa que
vivemos. Acaba o pastelão e começa a tragédia real. O crash será um
‘thrill’ para nossas vidas. A paz é chata; parece filme iraniano. A
guerra é que é legal, como um filme de ação. O crash também
revitalizaria o inútil, a importância do nada, a ausência de urgências,
uma saudável tristeza vil. Acabaria com a folga arrogante do capitalismo
financeiro, com seus imensos casinos do Mal.
Um crash pode nos dar o frisson de sermos vítimas, a luz negra
excitante da paixão. Pode acabar com este bom senso insuportável que nos
rege. Acabarão os países emergentes, pois todos seremos reemergentes.
Sem consumo, haverá um grande estímulo para o sexo… já que não teremos
nada a fazer. O crash vai parir ‘babycrashers’. E também vai justificar
broxadas: “minha filha… desculpe… é o crash…” O crash vai acabar com o
grande movimento em aeroportos e diminuirá sensivelmente o número de
barrigudos falando alto em celulares. O crash fecha Miami. Vão acabar
palavras como ‘globalização’, livre mercado, competitividade,
desregulamentação, qualidade total, inovação. Como se diz hoje, o mundo
terá um “downsizing”.
O crash pode vir a ser retrô, delicioso – voltaremos aos anos 50, de
onde nunca saímos, na verdade. Ficaríamos livres da euforia gratuita e
teríamos um sadio desalento. Acabaria o vício do passadismo rancoroso,
com a desistência da esperança regressista, acabaria a nostalgia de
torturas, heranças malditas, ossadas do Araguaia. Acabaria um sonho de
futuro. Só teríamos o presente incessante.
O crash vai ser bom para o Brasil conhecer o caos. Há anos que
falamos nele sem saboreá-lo, se bem que não temos competência nem para o
caos, que é mais ‘anglo-saxônico’. Teremos o pântano, o brejo (para a
onde a vaca vai), coisa mais ‘nossa’, mais ‘saudades do matão’ com sapos
coaxando. O pântano é mais Brasil. O único problema do crash é que ele
pode revitalizar os fascismos. E isso, naturalmente, poderá causar uma
guerra total, na qual morreremos todos, derretidos, adubando o solo para
novas espécies. Mas, já que o espetáculo da história humana foi esse
vexame milenar em busca de poder e de esperanças vãs, também isso pode
ser bom. O crash seria bom para acabar conosco, esta raça daninha que
atrapalhou o livre curso da natureza. Logo, não se preocupe.
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